17 janeiro 2015

Evocação do Major Tomaz por um aluno Especialista

MORREU O MAJ.TOMÁS

Morreu o Tomás !
Se, nos idos anos de 1969, alguém me dissesse que, quarenta e tal anos depois, eu iria escrever qualquer coisa sobre o Major Tomás, vulgarmente conhecido como “O Tomás”, eu diria, sem receio de desmentido, que essa pessoa estava com problemas na cabeça.
O Tomás ou o Major Tomás era, em 1969, comandante do GITE (Grupo Instrução de Técnicos Especialistas), na FAP, Base Aérea 2, na Ota, Alenquer. Eu fui um dos muitos mancebos que cumpriram o serviço militar na Força Aérea e conheci muito bem o Tomás.
Acabada a recruta em Dezembro de 1969, passámos à categoria de “alunos”, futuros especialistas e é aqui que entra em acção o terror do “Zé especial”.
“Eu como especialistas ao pequeno almoço”, “o especialista para mim é papel” (enquanto amarrotava uma folha de papel entre as mãos), “ò aluno, eu estou-te a ver”, “tu aí, anda cá – reforço fim de semana”, “anda cá, ò querido aluno, anda cá. Carecada já”, eram algumas frases com que nós éramos mimoseados pelo dito senhor, cuja autoridade era superior à do comandante da Base, ninguém o duvidava.
Quando, em formação de 4 homens por 10 homens, nos dirigíamos, marchando, para as aulas, situadas cerca de 1 km das nossas camaratas, às 7,45 h da manhã e víamos a Renault4, com a matrícula AM-64-qualquer coisa, a malta até tremia.
Havia sempre alguém, uns metros à frente de nós, que nos dizia (como conta a canção):
“Vem aí o Tomás”.
E, como que por encanto, o amontoado de 40 alunos mais ou menos disperso, de imediato se transformava numa formação, com o passo certo e tudo, marchando garbosamente e com os bivaques postos correctamente na cabeça. Era pouco frequente, mas acontecia que ele entrava subitamente numa aula, às vezes nem cumprimentando o “professor” (normalmente um sargento do quadro permanente) e, apontando com o dedo a um dos alunos, dizia: ”Tu, aluno, carecada, já”.
Alunos a caminho do GITE
Morreu o Tomás.
Mais de 40 anos depois, a notícia do seu falecimento deixa-me com sentimentos algo confusos. À época, ele era o terror da malta e era, mesmo, odiado, mas só enquanto alunos, naqueles 11 meses em que estávamos a tirar as especialidades. Porque depois, apesar de não nos convidar para beber um copo, não nos chateava absolutamente nada.
Não precisava de justificações, mas as carecadas e os reforços de fim de semana eram por as botas estarem mal engraxadas, por o cabelo estar comprido, por irmos com o passo trocado, eu sei lá que mais.
Juramento de Bandeira de uma recruta
Compreendo agora que a disciplina que ele impunha era, se calhar, imprescindível. Era tudo malta muito nova, entre os 17 e os 20 anos, na força da juventude. Talvez fosse, mesmo, necessária esta dureza.
Encontrei-o, uma única vez, em 1980, em Lisboa, na Av. Fontes Pereira de Melo, no então edifício Europeia. Eram 9 horas da manhã. Entrei no elevador e ele entrou logo de seguida. Mantinha o mesmo porte altivo, superior com que nos brindava 10 anos antes. Olhei para ele e em seguida, tanto tempo quanto demorou o elevador a ir do piso 0 ao piso 2, o meu pensamento voou e as mais variegadas lembranças chegaram em catadupa. E vi o ficar um fim de semana inteiro na Base de castigo, as carecadas, a carrinha Renault4 AM-60-24 , os roubos dos bivaques à entrada para a caserna, as aulas no GITE, o sargento Teixeira da
Aula de comunicações
Silva e a sua peculiar frase das 2as. Feiras: “ o pessoal não pode ir às gaiatas, senão, não apanha a “120” (querendo significar que os sinais morse não eram apanhados correctamente por nós, futuros operadores de comunicações, a 120 caracteres por minuto), o sargento BT das teleimpressoras, Angola, Henrique de Carvalho, Cazombo, Cuito Cuanavale, Luso, e…e…e…
Fantástico: 10 anos depois, já casado e com filhos, depois de ter estado no leste de Angola 26 meses, ainda senti um frémito no corpo. Não, não foi, obviamente, medo. Foi um sentimento que não consigo definir com clareza ainda hoje: talvez um misto de saudade, raiva, admiração, superioridade, inferioridade , não sei. 
O grande Tomás no mesmo elevador que eu, sem me conhecer e sem me dizer “ò aluno, eu estou-te a ver”.
Morreu o Tomás
Paz à sua alma




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